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Fazer para aprender no Orbitato


Escrito por Motorola

Saiba mais sobre o Instituto Orbitato nessa entrevista com Celaine Refosco.

Quem chega a Pomerode, em Santa Catarina, tem a sensação de que está em um cenário de filme numa cidade do interior da Alemanha. Entre casas no estilo enxaimel – forma de construção típica da arquitetura germânica – e seus jardins floridos e bem cuidados, os pouco mais de 30 mil habitantes trocam expressões em alemão entre si e desejam “Guten Morgen!” (bom dia) olhando nos olhos de quem caminha nas poucas ruas do centro da cidade.

É esse clima intimista, silencioso e calmo que hoje serve de base para profissionais criativos de todo o Brasil que buscam qualificação e imersão artística no Instituto Orbitato, um centro de estudos em moda, design e artes. Prestes a completar dez anos de existência no centro do polo têxtil catarinense, o Orbitato recebe nomes consagrados, como Jum Nakao, Ronaldo Fraga e Shingo Sato, para workshops e oficinas nas áreas de criação de produto, modelagem, estamparia e estilismo, além de realizar projetos sociais e consultoria para empresas e profissionais.

Fazer para aprender: esse é o intuito principal do Orbitato.

“Eu sou uma pessoa de ação, acredito na necessidade da prática e da vivência, acho que o conhecimento deve ser praticado, e que isso resulta em expressão”, destaca Celaine Refosco, professora e diretora do instituto. “Acredito numa educação que tira os véus e mostra possibilidades, empoderando pessoas a serem elas mesmas, e que, curiosamente, isso também é o que o próprio mercado busca.” É essa abordagem mais humana, sem deixar de lado as necessidades da indústria, que ilumina o Orbitato dentre tantas outras instituições de ensino na área.

Batemos um papo com Celaine sobre educação, criação e a grande dúvida de todos que se aventuram no ofício de artista: como conciliar os desejos e as paixões pela arte com a realidade profissional de cada um? Confira e inspire-se:

 

Comunidade Moto: Como você começou a trabalhar com artes e design?

Nascer artista faz a gente procurar caminhos que nos possibilitem seguir a paixão. Normalmente não são os caminhos mapeados da segurança e da vida como ela “deve ser”, mas caminhos próprios, muitas vezes incertos, não pavimentados – o que para a maioria das pessoas soa confuso e arriscado –, mas que são os que permitem a vida de cada um ser, de fato a de cada um. […] Continuar artista foi o meu objetivo, e o mundo do têxtil permitiu a expressão.

Foto: William Bucholtz.

CM: Como surgiu o Instituto Orbitato?

Passaram-se anos e eu continuei estudando a possibilidade de relacionar o exercício do conhecimento com as verdades e as necessidades da indústria, em especial a têxtil, a que vai resolver o que e como as pessoas vestem a si, aos seus e às suas casas. Um dia pensei: e se houvesse uma escola que falasse sobre isso? Mas permitindo que cada pessoa pensasse a sua forma?

Entendi que o conhecimento técnico é o que permite e potencializa a criatividade, e que o conhecimento de si próprio e do mundo são condições fundamentais para a saúde social e para a diversidade de pessoas e coisas.

 

CM: Como você entende o momento atual das instituições que ensinam moda/design, e como o instituto busca se diferenciar?

É um momento curioso, em que o mercado está cansado de tanta coisa idêntica e as pessoas começam a se dar conta de que o que chamamos de “qualidade de vida” não condiz com o dia a dia que vivemos. Estamos descobrindo que passamos a vida trabalhando para pagar por coisas que nem queremos tanto. Para cada vez mais pessoas surge uma pergunta, que é: “O que eu queria mesmo da minha vida?” E as respostas, podem ser mais múltiplas e amplas do que jamais foram, mas é preciso encorajar-se para viver o diferente. Como é preciso encorajar-se para empreender de formas diferentes também.

Foto: Tais Mahs.

CM: O Orbitato tem-se destacado por receber profissionais de renome e com visões muito atuais de mercado para oficinas e aulas. Por que a escolha desses profissionais?

Eu acredito que o grande valor de uma escola está na paixão de quem ensina. Quem ama o que faz, em geral, sabe fazer muito bem, e ensina de maneira contagiante, com entrega e sem mistério. Consegue praticar uma educação que é libertadora, porque conduz a pensar, a entender. Trouxemos muitos profissionais do Brasil e do mundo, e tem sido um grande prazer observar as relações que se formam entre quem ensina e quem aprende, independentemente de titulação, reconhecimento, língua, origem, etc. E as histórias são muitas: a Ana Lúcia Niepceron (modelista de São Paulo), depois de nove anos viajando para Pomerode com grande frequência, mudou-se para cá; o Shingo Sato, modelista japonês, apaixonado por futebol, que reside na Itália, preparou-se e ministrou seu primeiro curso no Brasil falando um português bastante digno. Ele voltou pra casa com uma camiseta oficial da Seleção Brasileira com seu nome bordado nas costas.

CM: E por que a localização em Pomerode, uma cidade tão pequena, longe de grandes metrópoles?

Nas cidades pequenas há um bem-viver que permite algumas coisas diferentes dos grandes centros. De certa forma estão relacionadas com tempos passados, com hábitos de segurança, colaboração e solidariedade. Mas sobretudo o tempo parece passar um pouquinho mais suavemente. Há um sossego que envolve as pessoas e que acaba funcionando como uma imersão. Os professores, sempre que têm tempo, gostam de vir com antecedência, aproveitar um pouquinho o entorno, e comprar a comida artesanal, de grande qualidade, como é o caso do Jum Nakao.

CM: Quem chega ao instituto encontra alunos descalços, música rolando, uma mesa farta de comida e um clima de liberdade. Esse clima intimista e leve foi pensado ou foi acontecendo naturalmente?

Nossa sociedade adota a formalidade como uma expressão de seriedade, o que na realidade não garante nada, apenas restringe expressões. Já a informalidade, que naturalmente é muito mais humana, respeita as individualidades e os momentos de cada um, parece bagunçada.

Ter luz, silêncio, conforto, comida, aconchego ajuda a nos sentirmos à vontade e cria condições para a superação, para o insight e para as expressões individuais. Assim, as coisas vão acontecendo, as pessoas entendem, aderem e praticam. A camaradagem vai surgindo como expressão espontânea.

Foto: Karina Beatrice Frainer.

CM: E quais são os próximos passos de Celaine Refosco? E do Instituto Orbitato?

Ano que vem será o ano dez. Quando a gente começa, não pensa que poderá chegar até lá, né? Mas chegou! Eu sempre gosto de pensar “o que é hora de fazer agora? A que devo dedicar minha energia, minha alegria, neste momento?”

Tenho pensado que o futuro nos cobra, cada um do seu ponto de vista, que estudemos, compreendamos e atuemos, nas questões ambientais e sociais.

Por outro lado, há um crescente poder do indivíduo, do pequeno e, portanto, das expressões múltiplas. Embora, agora, pareça impossível reunir o melhor do passado e o melhor do futuro, esse é o sonho, e quando tantos pedem por “inovação” acho que é isso que se quer dizer.

Um mundo mais heterogêneo é um mundo mais saudável.

Vídeo institucional do Instituto Orbitato – reprodução.

 

Para conhecer mais sobre as atividades que o Orbitato realiza, e também projetos como “Mulheres de Mafra”, “Oficinas de Artes e Ofícios”, é só acompanhar a página do instituto.

 

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