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A busca pelo penta


Escrito por Motorola

O Brasil e a conquista da quinta taça no Campeonato Mundial de Futebol de Cego

Preste a embarcar para Madri, Espanha, onde aconteceu a 7ª edição do mundial de futebol de 5, a Seleção Brasileira recebeu o Hello Cidades em São Paulo para uma conversa que teve um pouco de tudo. Em momentos de descontração e outros mais sérios, técnico e atletas contaram como o time tem superado com um toque de classe desafios dentro e fora do campo

Uma máquina de ganhar títulos

O fixo Damião treina finalizações ao gol sob a atenção da comissão técnica
O fixo Damião treina finalizações ao gol sob a atenção da comissão técnica

Contabilizar as conquistas da Seleção Brasileira de Futebol de 5 está ficando cada vez mais difícil. O time venceu as quatro Paralimpíadas já realizadas, é hexacampeão da Copa América IBSA, tri dos Jogos Parapan-Americanos e, agora, pentacampeão do Campeonato Mundial IBSA de futebol cego.

Apesar do retrospecto favorável, não pense que a equipe brasileira sobra dentro de campo em todos os jogos. Time a ser batido, os talentosos atletas brasileiros estão acostumados à marcação mais dura e à motivação extra por parte de seus adversários. Entre o desejo de vencer e a taça, há muito trabalho e disciplina para chegar lá.

O técnico Fábio Vasconcelos observa treino do Brasil
O técnico Fábio Vasconcelos observa treino do Brasil

Antes de mais um treino preparatório, o técnico Fábio Vasconcelos enumerou os motivos do sucesso verde-amarelo: a profissionalização dos atletas, uma comissão técnica completa e o moderno Centro Paralímpico Brasileiro, para ele, o maior legado dos Jogos do Rio, em 2016.

No campo, histórias se cruzam

As regras do futebol de 5 muito se assemelham às do futsal, o futebol de salão. São quatro jogadores de linha cegos e vendados mais um jogador no gol, este com visão total. As vendas servem para deixar todos os atletas de linha em condições iguais, já que alguns deles são capazes de enxergar resíduos visuais, como vultos.

Detalhe da venda utilizada pelos atletas durante as partidas
Detalhe da venda utilizada pelos atletas durante as partidas

Dentro de campo, além do futebol vistoso, muitas histórias despertam atenção. Como as dos alas ofensivos Jefinho e Ricardinho, considerados os melhores atletas do mundo nos últimos anos. A eles se somam nomes como o de Maurício, ala defensivo angolano que encontrou no Brasil sua vocação pela bola.

Da infância difícil em Angola ao futebol brasileiro

Hoje em dia, sou um atleta realizado por poder participar de competições internacionais, ainda mais pela maior seleção“. Aos 11 anos, Maurício Tchopi Dumbo deixou Angola para ser alfabetizado no Brasil. Na instituição em que foi viver descobriu a bola com guizo e o futebol de 5.

Jogadores fazem aquecimento durante treino
Jogadores fazem aquecimento durante treino

Uma das coisas que eu mais tinha vontade de jogar com meus amigos em Angola era futebol. Só que como lá não tinha bola que fazia barulho tentávamos adaptar com bola de sacola, chutar garrafa…” enumera Maurício enquanto demonstra sua paixão pelo esporte.

Quando cheguei aqui e descobri que o deficiente visual poderia jogar foi amor à primeira vista“.  

Maurício realizando treino de penalidades. O orientador bate nos dois lados da trave e depois indica o meio do gol para guiar a cobrança certeira do atleta.

Jeferson da Conceição, o grande Jefinho

Então, minha história é parecida com a de alguns companheiros aqui. Eu enxerguei um pouco ainda, até os 7 anos de idade, mas tenho poucas lembranças desses momentos.” Foi na Bahia que o melhor jogador do mundial de 2010, sediado na Inglaterra, deu seus primeiros chutes.

Sempre quis jogar futebol, desde pequeno acompanhava futebol na televisão, sempre gostei muito, mas me perguntava como é que um cego pode jogar bola?” Antes de descobrir a resposta, Jefinho se iniciou nos esportes praticando natação e atletismo.  

O ala ofensivo Jefinho falando com o Hello Cidades
O ala ofensivo Jefinho falando com o Hello Cidades

Futebolista há 14 anos, Jeferson conhece muito bem os obstáculos enfrentados por pessoas com deficiências e acredita que o preconceito é motivado pela falta de informação.

Muitas pessoas não sabem como é o dia a dia de uma pessoa com deficiência. Imaginam uma coisa, mas quando começam a conviver com a gente vê que é muito diferente.

A diferença citada fica clara na desenvoltura com que atletas cegos jogam futebol, com dribles, fintas e lances cheios de plástica. Para se manter motivado após tantos títulos, Jefinho conta o que move essa seleção:

A gente sabe que a nossa geração já está na história da modalidade e a gente quer cada vez mais escrever nosso nome, pois cada competição tem uma história diferente.

Ricardo Steinmetz, o fenomenal Ricardinho

Bem humorado, Ricardinho começou o bate-papo com o Hello Cidades contando aos risos que jogar bola é mais fácil do que dar entrevistas. Quem o vê dentro de campo sabe que o atleta não é de fugir às divididas. Pelo contrário, é no confronto direito que ele mostra seu talento.

Jogando há alguns anos na seleção de futebol de 5, Ricardinho falou que os Jogos Paralímpicos do Rio foram importantes para uma maior popularização de esportes inclusivos. Porém, o atleta reconhece que ainda existe um abismo entre o paradesporto e o esporte convencional.

Ricardinho, ala ofensivo da seleção de 5 fala com o Hello Cidades
Ricardinho, ala ofensivo da seleção de 5 fala com o Hello Cidades

Às vezes, fico comparando com o futebol convencional, sem tirar o mérito dos caras, eu acho que o nosso reconhecimento ainda é muito pequeno haja visto o que a gente tem feito pelo Brasil.

Apesar de também apontar seu incômodo com a desigualdade financeira entre as modalidades, o ala ofensivo da seleção é ponderado: “São dois mundos bem diferentes, mas a gente tá aí, fazendo a nossa parte bem feita.

Com muita calma, Ricardinho explicou que apesar da cobrança em cima do time do Brasil pelo desejado penta, os atletas viajariam focados e confiantes, pois cumpriram com disciplina toda a preparação programada pela comissão técnica: “Vamos deixar acontecer, agora não tem muito mais o que fazer, é lapidar o que a gente preparou, viajar e jogar.”

Ricardinho conduz a bola durante treino da seleção de 5
Ricardinho conduz a bola durante treino da seleção de 5

O Campeonato Mundial IBSA de Futebol de Cegos aconteceu entre os dias 7 e 17 de junho, em Madrid. A seleção fez uma excelente primeira fase, sendo o 14×1 contra a Costa Rica a maior goleada de toda a competição.

Nas quartas de finais, 3×0 sobre a Colômbia. Nas semis, o resultado mais apertado, vitória pelo placar mínimo contra a boa seleção chinesa, uma das melhores da modalidade.

A final repetiu o clássico de maior rivalidade entre seleções da América Latina: Brasil x Argentina. Vitória por 2×0 da seleção canarinho, mais artilharia para Ricardinho, 10 gols no total. A seleção brasileira de futebol de 5 realmente está construindo uma das maiores hegemonias do futebol mundial – e merecem todo o mérito por isso.

Continue acompanhando o Hello Cidades para saber mais sobre esportes na sua cidade.

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