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O poder do sound system nas ruas de São Paulo


Escrito por Motorola

Como as festas jamaicanas transformam o espaço público e espalham cultura ao redor da capital paulistana

Foi em meados dos anos 2000 que Fabio Murakami, o Yellow P, levou o os ritmos jamaicanos de dentro dos bares e casas noturnas para as ruas de São Paulo. Assim surgiu o DubVersão Sound System, o primeiro sound system da América Latina. O grupo foi responsável por difundir não apenas as tradicionais festas jamaicanas na capital paulistana, mas por ocupar espaços públicos como praças, parques e monumentos em uma época onde isso não era tão comum como hoje.

Tecnicamente falando, a diferença de uma festa sound system para as outras festas é a pressão sonora, que nada tem a ver com volume.”A gente leva a própria aparelhagem. Você não vai ouvir um som como é na sua casa ou em uma caixa de som comum. Você vai ouvir com todo o espectro de frequência”, afirma Yellow P. O Dubversão trabalha com 12 falantes graves e uma potência de 17 mil watts. “A disposição das caixas conta também, além de elas serem grandes e terem uma presença física. Tudo fica mais visceral, exposto”, completa.

Da esq. para à dir. Jimmy The Dancer, Yellow P e Sassa, do Dubversão Soundsystem
Da esq. para à dir. Jimmy The Dancer, Yellow P e Sassa, do Dubversão Soundsystem

A cultura sound system nasceu na década de 50, na Jamaica. Os encontros nas ruas para curtir diversas vertentes do reggae como ska, rocksteady, dancehall e dub, acabaram virando uma alternativa para aqueles que não tinham condições de frequentar as festas em clubes fechados. As músicas mesclam mensagens de amor e protesto, mas sempre com um viés positivo.

A trajetória da cena sound system em São Paulo foi parecida. O DubVersão levou inicialmente suas festas para espaços públicos na região central paulistana. Os eventos eram frequentados por diversas pessoas, mas principalmente por aqueles que já viviam o lifestyle urbano como skatistas, artistas de rua, ou apenas simpatizantes de um estilo de vida mais distante do convencional.

O público que frequentava as festas estava ali mais pela música do que para conhecer outras pessoas. Aos poucos, a cultura foi se espalhando pela cidade e, não apenas o coletivo começou a ter mais alcance, como novos grupos foram surgindo. “O sound system criou uma legião de gente interessada em ouvir música, mas em também fazer, o famoso ‘do it yourself’ “, diz Yellow P.

Foto: Miguel de Castro
Foto: Miguel de Castro

Lei Di Dai foi a primeira mulher a ter um sound system no Brasil. Em 2012, quando já tinha mais de 15 anos de carreira, a cantora e o seletor, Vinnie Selecta, adquiriram seus próprios falantes e criaram o Gueto pro Gueto Sistema de Som. Desde então a dupla leva suas festas para as periferias de São Paulo, com o objetivo de trazer diversão, cultura e reflexão para os ‘moradores da quebrada’, diz a cantora. “O Gueto pro Gueto não é só uma festa. Temos música, workshops, bate-papo”, completa.

Daí ressalta a importância do Gueto pro Gueto na hora de conscientizar a população sobre seus direitos. Ela conta que já fez eventos em locais onde a comunidade do bairro nunca nem havia entrado. Suas festas mostram que o espaço público não é apenas um nome, mas está ali para ser usado. “As pessoas acabam entendendo que o espaço público é delas”, afirma. Além disso, a cantora pontua que a missão do coletivo é fazer com que os jovens acreditem no seu próprio talento.

Atualmente São Paulo conta com diversos coletivos fazendo festas e levando a cultura sound system para as ruas. Grupos como HF Sistema de Som, Feminine Hi-Fi, Ruído Rosa Sistema de Som, Quilombo Hi-Fi, Africa Mãe do Leão, Favela Sound System e Monkey Jahyam são alguns nomes que movimentam a cena atual.

O sound system vai além da música e um sistema de falantes com alta potência. Talvez a peculiaridade das festas seja justamente o fato de elas não serem apenas festas, e sim uma parte de toda a cultura, o lugar onde as mensagens são passadas.  Tanto Yellow P quanto Lei Di Dai não apenas tocam os ritmos e ideias em seus eventos, mas vivem eles no seu dia a dia.

Confira nosso papo com Yellow P e Lei Di Dai no vídeo abaixo:

Se você quer saber mais sobre a cultura sound system, o hub Hello Moto te dá algumas dicas:

Para visitar: Jamaica, Jamaica, Sesc 24 de Maio. A exposição faz um tour cronológico no universo sonoro e cultural da Jamaica. Em cartaz até 26/08.

Para ver: House Sounds. O documentário produzido pela Coleta Filmes conta a história do coletivo de música homônimo, que dissemina cultura soundsystem por São Paulo. Disponível no Youtube.

Para achar nas festas ou nas ruas fazendo a divulgação: Jimmy the Dancer. Talvez a figura mais icônica das festas de reggae de São Paulo, Jimmy faz parte do Dubversão, ajudando na divulgação do coletivo. Além disso, é figurinha carimbada nas pistas de dança paulistanas.

Jimmy The Dancer fazendo a divulgação da festa Java

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Foto da capa: Miguel de Castro

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