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O peso e a fúria do Recife


Escrito por Motorola

Como a cena de rock pesado conquistou os palcos do principal festival da cidade

Com artistas que se confundem com a construção da identidade musical brasileira, Pernambuco ainda tem muito a contribuir ao cenário sonoro do país. Na mesma terra que nos deu nomes como Luiz Gonzaga, Alceu Valença e Chico Science existem vários artistas buscando deixar suas marcas por meio de sons mais pesados. E, não, não estamos falando do grave encorpado dos tambores do maracatu.

Inspirados pelas versões mais extremas do combo bateria-baixo-guitarra, bandas de metal do Recife e região vêm lapidando seu espaço na base de muito grito, profissionalismo e, claro, boa música.

Antes de subirem ao palco da última edição do Abril Pro Rock, que aconteceu nos dias 27 e 28 de abril, conversamos com as bandas locais mais expressivas do line-up, além do produtor do festival, para entender de onde veio e pra onde vai o peso que faz o Recife tremer.

No princípio, só havia trevas

Se os anos 80 ajudaram a popularizar pelo mundo algumas vertentes do heavy metal, à época, a cena do Recife dava seus primeiros passos em meio a uma briga de foice pelo pouco espaço destinado às bandas independentes. Não à toa, underground, nicho e resistência são palavras comuns no discurso de quem viu e fez a cena acontecer.

Antes do Mangue Beat, a única banda daqui que colocava 300/400 pessoas num show era a Câmbio Negro HC, a cena era bem underground, mas foda. Dela também saíram Devotos do Ódio, Faces do Subúrbio, Ataque Suicida, Decomposed God, Matalanamão… O Nordeste sempre teve uma cena forte de metal“, relembra Paulo André, produtor do Abril Pro Rock e figura atuante da cena local.

Pioneira do metal pernambucano, a banda Hanagorik segue a mesma linha: “Foi uma conquista que se deu pouco a pouco, no início foi realmente difícil estabelecer um circuito e ter atenção da mídia (…) quando chegamos nos anos 90 as coisas já estavam se abrindo mais.

Criada em Surubim, a 120 km do Recife, a Hanagorik foi uma das responsáveis por atrair mais atenção para os sons extremos na capital pernambucana. De pequenos palcos tocando para amigos no interior, a banda ganhou atenção no Recife e foi o primeiro grupo de metal do estado a fazer uma turnê pela Europa.

Contemporânea à banda Hanagorik, o grupo de death metal Decomposed God atribui a dificuldade de legitimar uma cena artística a questões geopolíticas: “O Nordeste e Norte do Brasil sempre foram colocados à margem dos interesses políticos. Sempre existiu um preconceito muito grande com as pessoas dessas regiões. Isso reflete diretamente na cena cultural como um todo.

Integrante da nova geração metaleira, a Matakabra dá a sua visão sobre os desafios que o metal encontrou para se estabelecer: “Aqui a cultura local é extremamente massificada, ser consumidor dessa cena (de metal) é algo que vai além de uma catarse proporcionada em momentos de estresse ao ouvir e tocar os sons pesados. Isso passa ser um modo de vida e resistência para o indivíduo.”

Da lama ao caos

É quase impossível falar dos músicos independentes do Recife sem citar Chico Science & Nação Zumbi. Unindo o peso dos tambores do maracatu à distorção das guitarras do metal, a banda abriu caminho para muitos artistas locais no começo dos anos 90.

Se Chico e Nação eram caranguejos cibernéticos saindo da lama do mangue para ganhar os palcos da cidade, o lado mais caótico passou a ser bem representado pelas bandas de metal que abriram caminho para a formação de uma cena local.  É o que nos conta Marco, da Decomposed God:

O manguebeat foi um divisor de águas para nossa cultura. Fez abrir o leque de possibilidades em todas as áreas, criou um circuito mais viável e chamou a atenção do país pra Pernambuco. E essa atenção veio pra todos. O underground sempre vai existir!

Decomposed God

 

A nova cara do metal recifense

Quando os nomes Nação Zumbi, Lenine, Otto e Johnny Hooker vem a cabeça não é para menos. São produções que fazem parte da história de nossa cultura recente. Mas isso não significa que a música pesada e o metal não tenham construído sua história por aqui.”

Quem nos conta é o pessoal do Matakabra, banda que une o nu metal ao metal core para criar uma linguagem própria.

Ela (a cena de metal) existe e é sólida. Para entrar em contato com ela, o documentário, filme e livro do “Pesado, que som é esse que vem de Pernambuco” é a melhor forma. É possível tomar conhecimento e acompanhar o desenvolvimento desse nicho.

Além de contar com as veteranas Hanagorik e Decomposed God, a cidade não deixa de ganhar novos nomes no peso. Com a palavra, a própria Hanagorik: “Hoje em dia, tem várias bandas fazendo um trabalho muito bom e muito profissional como o Cangaço, Matakabra, Will2Kill, Alkymenia“.

Hanagorik

 

Do Abril Pro Rock para os palcos da cidade

O Abril Pro Rock é a maior concentração de bandas de rock pesado de todo o norte e nordeste, esse imenso pedaço do país”, explica Paulo André, idealizador do festival.

Matakabra

 

Desde 1999, com um histórico show do Sepultura, vimos o potencial do público do rock pesado, o mais fiel da música pop, compra ingresso, cd, vinil, camiseta, adesivo, etc“, continua.

Considerado o carnaval por uma legião de jovens vestindo preto, o festival atrai público de outros estados com shows de bandas locais e internacionais.

Quando o assunto é onde ver um bom show de metal no Recife, as bandas indicam suas casas favoritas: Estelita, Burburinho e Academia do Rock.

Continue acompanhando o Hello Cidades Recife para saber como curtir e se integrar à sua cidade.

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