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Os artistas brasileiros que estão redefinindo o futuro da cerâmica


Escrito por Motorola

Em São Paulo, jovens criadores dão um ar contemporâneo à arte ceramista

A técnica de moldar objetos tendo a argila como matéria-prima é uma das mais antigas da humanidade. O objetivo, de início, era meramente prático, mas logo a capacidade de transformar o barro com as mãos foi reconhecida como uma expressão artística. Por meio de diferentes formas, os artefatos de cerâmica se tornaram marcas de povos e culturas.

Nos últimos anos, temos acompanhado um crescimento no interesse por atividades manuais nos grandes centros urbanos, graças aos movimentos de sustentabilidade e consumo consciente. E é nesse contexto que se insere a nova onda da cerâmica. Jovens artistas têm dado um ar contemporâneo ao material, criando peças que vão do utilitário ao decorativo.

O #hellocidades, projeto da Motorola que incentiva a reconexão com você mesmo através da sua cidade, trouxe quatro nomes para ficar de olho!

Tempo expandido

Como boa parte dos ceramistas atuais, Danielle Yukari começou a se dedicar ao torno de modelagem como forma de desacelerar. Em 2014, criou a Yūkari. “Eu trabalhava com moda, seguindo os calendários super equivocados que esse mercado alimenta. Fiquei exausta com a correria dos dias e, ironicamente, percebi que não tinha tempo para criar. Senti a necessidade de encontrar outros suportes que não o tecido para transpor meu processo criativo, e foi assim que acabei me envolvendo com a argila”, conta.

A produção de uma peça leva dias, da concepção ao produto acabado. Para Danielle, esse processo funciona também como um refúgio: “Eu gosto de pensar que existe uma conversa entre o artesão e a argila e o trabalho é essa dança a dois. A argila tem memória e age no seu tempo. Acelerar esse processo geralmente acaba com uma peça trincada, porque não se deixou secar lentamente ou porque sofreu o choque térmico na abertura do forno. Hoje eu faço a peça do início ao fim e sinto que o contato das mãos com a terra é meditativo, um exercício constante de paciência, troca e aprendizado”.

A inspiração para novas formas e tonalidades vem do seu dia a dia. Atualmente morando em Los Angeles, ela gosta de perceber as nuances de luz e cores da cidade, além de acompanhar as novidades nas áreas de desenho gráfico, moda, música, fotografia, dança e performance.

Liberta das amarras de uma linha de produção, Danielle está na fase de testar novos materiais e sair da zona de conforto. “Venho trabalhando com vários tipos de argila e testando como os esmaltes que costumo usar se comportam nessas diferentes bases. Meus materiais cerâmicos são feitos em pouca quantidade e peças chave como vasos, jarras e objetos geralmente são peças únicas”, completa.

As peças da Yūkari podem ser encontradas em dois endereços em São Paulo: na loja física da Galeria Nacional e no estúdio criativo Grevílea.

Fotos: Peças feitas em parceria com a Grevílea, vendidas exclusivamente na sede estúdio criativo e com assinatura personalizada

Utilitarismo com alma

Sofia Oliveira também resolveu se dedicar à arte ceramista após passar por rotinas estressantes de trabalho, dessa vez na área da publicidade. Profissionalizou-se na França e, em 2015, de volta ao Brasil, criou a Olive Cerâmica.

Desde então, Sofia não para. Com uma boa cartela de clientes fixos, hoje ela tenta arranjar tempo para tocar projetos paralelos. “Há uns dois anos eu tenho a ideia de fazer uma coleção de luminárias com cúpulas de cerâmica. Também estou para produzir uma coleção de tecidos com peças de cerâmica, só preciso organizar minha rotina pra isso!”, conta.

As formas mais utilitárias sempre foram sua grande paixão. “Às vezes me pego pensando se algum dia irei para a parte mais escultórica, mas não sei se me vejo fazendo isso. Por enquanto eu gosto mais de fazer o utilitário mesmo”, reflete enquanto molda copinhos encomendados pela NK Store. E completa: “No utilitário você precisa ter mais cuidado com os materiais utilizados. Eu não posso utilizar esmalte de chumbo, por exemplo, porque faz muito mal se for ingerido. No decorativo você não precisa se preocupar tanto com esse tipo de coisa”.

A ceramista divide ainda seu tempo dando aulas de formação na área. Para quem está começando, ela enfatiza o fato de que para manipular a cerâmica no torno é necessário muito mais jeito do que força. “Tem horas que você precisa de força, mas você precisa da força com o jeito certo. É um aprendizado mesmo”.

Em São Paulo, as peças da Olive Cerâmica podem ser encontradas na Collector55 e no próprio site da marca.

Outros caminhos

A cerâmica como ponto de partida. Heloisa Galvão trabalhou com a argila tradicional durante muitos anos até descobrir um novo caminho: a porcelana. E foi aí que ela conseguiu expressar de forma única seu estudo sobre peso, leveza e fluidez.

“A porcelana é um tipo de cerâmica, ela é uma argila muito branca e com partículas mais finas que a argila de terra, feita de caulim”, explica. A diferença está na delicadeza do material: “Dá para fazer os mesmos processos da cerâmica tradicional na porcelana — placa, torno, molde…Mas ela é um pouco mais difícil, porque é uma matéria menos plástica, que necessita ser mais molhada. Ela tem mais dificuldade de secagem, racha mais. A textura é mais fina, mas, por incrível que pareça, é um material mais resistente a altas temperaturas”.

Heloisa Galvão em seu ateliê, localizado no bairro de Pinheiros

Tudo começou na faculdade de artes plásticas, em Vitória, quando se especializou em processos históricos de fotografia. Sua ideia era trabalhar com objetos fotográficos e, para tanto, começou manipulando papéis e tecidos. Mas, na hora da construção, percebeu que esses materiais não davam tantas possibilidades tridimensionais. Foi aí que resolveu experimentar fazer os objetos em cerâmica.

“Me apaixonei pela matéria. Depois disso vim para São Paulo para fazer mestrado e comecei a trabalhar com porcelana, construindo instalações. Logo percebi que a porcelana tinha uma característica diferente da argila mais tradicional, e isso me encantava. Em seguida fui para Boston e fiz um curso de serigrafia em cerâmica que foi decisivo na minha vida”.

A Série Líquida de Heloisa Galvão

Heloísa, então, passou um ano inteiro desenvolvendo sua primeira coleção, intitulada Série Líquida, que virou marca registrada do seu estúdio graças às gotas formadas durante o processo: “A gente transforma as barras em porcelana líquida e já pigmenta a massa, mas só conseguimos perceber a cor no final do processo. Depois de modelada, viramos a peça para que ela mantenha as gotas, que falam muito sobre a fluidez e o acaso. Cada peça é única porque ela flui de um jeito próprio”.

No início, ela não imaginava que a série faria tanto sucesso. “Achei que não teria aceitação, porque as pessoas não iam querer um prato torto! Mas foi aí que eu me enganei, porque todo mundo é um pouco torto”, brinca.

Algumas das séries de porcelanas feitas pelo Studio Heloisa Galvão

Hoje, o ateliê conta com outras quatro séries — Voláteis, Sólidos, Sólidos Carbono e, mais recentemente, a Série Moles, composta por vasos maiores que trabalham com a questão da gravidade e de como a matéria repousa na superfície.

Vertente

Enquanto alguns artistas estão moldando a cerâmica, outros se debruçam nos desenhos fixados no material. Esse é o caso de Marcelo Stockler e sua Vertente.

Criada em 2015, a marca é inspirada em suas memórias de infância. “É um pouco a tentativa de resgatar esse período de inocência e beleza. A partir disso fui criando outras composições”, conta.

Na Vertente, Marcelo trabalha com diversos suportes, incluindo tecidos, mas foi na cerâmica onde tudo começou. “A cerâmica que eu uso tem um peso que me agrada bastante, uma coisa mais concreta mesmo, e não tão delicada quanto a porcelana. É uma superfície incrível para se trabalhar, até melhor que o papel inclusive, porque parece que flui mais. Levei um tempo para encontrar a tinta adequada, que fixe bem material”.

Uma das características mais expressivas de suas ilustrações é o fato de os personagens não terem rostos: “Acho que isso faz com que as pessoas se enxerguem ali, e isso é algo que me comove bastante”, completa.

Atualmente, além das memórias de infância, ele trabalha com desenhos que expressam amor adulto, a fim de criar mais diversidade em seus trabalhos. Além disso, as ilustrações têm se transformado em tatuagem: “As pessoas gostam tanto dos desenhos que têm pedido para tatuá-los na pele. Então agora estou estudando esse novo suporte, o corpo humano, para começar a tatuar meus clientes em breve”, revela.

Esse é apenas um dos muitos movimentos que acontecem na capital paulistana. Para saber mais, não deixe de acompanhar o Hello Moto e compartilhar suas experiências com a hashtag #hellocidades.

 

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