hellocidades
hellobh

Bharbixas FC e o futebol que representa


Escrito por Motorola

Conversamos com o time LGBTQ+ de BH que supera preconceitos jogando bola

Clássico de futebol masculino local, o estádio está lotado. Em uma subida ao ataque a bola sai pela linha de fundo e o juiz aponta o tiro de meta. O goleiro se prepara para fazer a reposição da pelota e o rumor se inicia na torcida rival. O atleta toma distância para chutar e o grito vai tomando conta das arquibancadas até ecoar no templo sagrado do futebol: BIIIIIIIICHAAAAAA!

O gesto de preconceito, para muitos apenas uma “provocação”, tem se repetido amplamente nas arenas brasileiras. Seus praticantes dizem não querer ofender alguém ou um grupo. Alegam que estão apenas tentando tirar a concentração dos atletas, mas sugerem que dentro do campo não há espaço para homens gays, como se a orientação sexual fosse sinônimo de fraqueza.

Para romper com esses e outros estigmas, um time declaradamente bicha de Belo Horizonte está convidando o público LGBTQ+ (lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e queers) que ama futebol a ocupar e conquistar seu espaço nos gramados da cidade. Estamos falando do Bharbixas Futebol Clube, uma iniciativa legítima e alegre que se propõe a tornar as quatro linhas muito mais inclusivas.

Da internet para o campo

A tecnologia foi o que nos juntou“, nos conta Leonardo Machado, um dos representantes do Bharbixas FC. “Por meio de redes sociais foi que aconteceu o agendamento do primeiro treino, que nos conhecemos e até hoje continuamos divulgando as datas dos eventos“, continua.

Como a iniciativa tem sido recebida? Leonardo responde: “Temos seguidores de outros estados e países, que se identificam com nosso jeito de ser, agir e pensar. É gratificante e incrível o quanto que a tecnologia pode nos aproximar de tantas pessoas com interesses em comum e ver que fazemos a diferença em muitas situações.

Ampliando limites no futebol de BH

Com grandes espaços destinados ao esporte, a cidade de Belo Horizonte (como a  maioria dos municípios) ainda engatinha quando o tema é a inclusão LGBTQ+. “Alguns de nossos jogadores já foram às arquibancadas várias vezes e viram que não é nada fácil”, nos explica Leonardo sobre a dificuldade que o público gay encontra ao disputar espaço nos estádios.

“Vale ver as piadas, xingamentos e atitudes quando um jogador erra algum passe: viado, bichinha e ou maria são nomes frequentes usados para xingamento. Existem algumas torcidas organizadas voltadas para a população LGBTQ+, mas infelizmente são menosprezadas e julgadas pela arquibancada hétero.”

Para superar as dificuldades de convivência em ambientes menos tolerantes, a solução foi criar um espaço seguro para curtir o esporte mais amado do país.

“Os frequentadores não sentem nenhum medo de julgamento ou preconceito, podem ser quem quiser, se divertir, gritar e dançar. Essa é a principal diferença do nosso espaço e faz com que a cada dia que passa, mais pessoas se tornam assíduas aos treinos.”

Quando a bola entra no campo da política

Volta e meia, a discussão sobre os limites entre política e esporte ganha holofotes, principalmente quando atletas e/ou torcidas se posicionam sobre temas sensíveis a toda a sociedade.

Para Leonardo Machado, não existe limites entre jogar bola e fazer política:

“Acreditamos que o futebol é um grande transformador de vidas (…) Desde o menino que sai da favela para ganhar o mundo jogando futebol, o torcedor que sai aos domingos de casa para ir ao estádio buscando uma alegria através da vitória do seu time e nós que somos gays e temos as mesmas capacidades dos héteros e fomos colocados de lado pela sociedade como pessoas que não eram capazes de jogar futebol.”

Leonardo também destacou algumas iniciativas super importantes no combate à desigualdade dentro das quatro linhas. Uma delas é a Fare Network, que reúne ONGs como a Football V. Homophobia, que além de lutar contra a intolerância ao público LGBTQ+ também atuam pelo fim do racismo, machismo e preconceito contra deficientes no esporte.

Outro exemplo citado é o do jogador Thomas Hitzlsperger, meio-campista que jogou em grandes clubes da Inglaterra, com 52 jogos pela seleção alemã, que se tornou o primeiro boleiro de destaque a se assumir gay em seu país. Desde então, o atleta tem lutado pela inclusão no esporte.

“Geralmente, os jogadores héteros pensam que o LGBT+ não sabe jogar futebol. Ou que são mais delicados, que vão reclamar muito. Mas isso é desmistificado a partir do momento do apito inicial”, pontua Leonardo.

Do sonho coletivo à consagração nos gramados

Com menos de um ano de vida, o Bharbixas FC já tem algumas conquistas para comemorar. A primeira e mais importante delas, a própria criação do time, em junho de 2017. Enfim, quem se sentia excluído do mundo do futebol ganhou um espaço para ser feliz e jogar bola. A segunda, a estréia em uma competição totalmente voltada ao público, a Champions Ligay, que aconteceu no Rio de Janeiro no último novembro. Leonardo nos conta um pouco sobre a participação da equipe:

“Foi uma experiência incrível ver 8 times com o mesmo objetivo: jogar contra o preconceito. Locamos um micro-ônibus, enfrentamos sete horas de estrada e chegamos lá, felizes e sorridentes, dançando e cantando. A cada jogo que passava, entrávamos toda a delegação em campo e comemorávamos. Quando caímos na realidade, já tinha acabado o dia, não havíamos almoçado, estávamos ligados no 220W e estávamos na final. Foi lindo, é indescritível.”

O Bharbixas FC acabou se sagrando o 1º time a levantar a taça e já se prepara para a 2a edição da competição, que acontece em Porto Alegre nos dias 14 e 15 de abril. Leonardo fala das expectativas para o torneio: “Se unir a mais 11 times e mostrar que o preconceito não tem vez, rever os amigos que fizemos e, claro, jogar aquele futebol maroto e quem sabe trazer o bicampeonato, né?”

Como todo time de amantes de futebol, o Bharbixas FC conta qual o estádio em que sonha em disputar uma partida: “Temos um carinho enorme pelo nosso querido Mineirão. Crescemos vendo jogos de times locais e a Copa do Mundo sendo realizados aqui, logo, ainda temos essa esperança.”

Quer participar ou apoiar um time inclusivo em BH?

O Bhabixas FC mantém seus treinos abertos a todo o público LGBTQ+. A melhor forma de entrar em contato e participar do eventos é acessando a página do time para se informar e fazer contato. Leonardo fala sobre o clima dos treinamentos e jogos:

“Nossa, é super diferente. Desde o momento que começamos os jogos até o final. Se no meio disso toca Anitta, Pablo Vittar ou qualquer funk, começamos a dançar. Além disso, criamos um laço de amizade muito forte, e isso favorece cada um a entender e respeitar o outro.”

Além de promover a inclusão no esporte, o time também busca criar uma rede de apoio para fortalecer a iniciativa na capital mineira:

“O Bharbixas é o nosso jeito de lutar contra o preconceito não só no futebol, mas em todos os esportes (…) A caminhada é longa, mas já estamos vendo pequenas mudanças em poucos passos que já demos. E esperamos cada vez mais contar com o apoio da mídia, canais de comunicação, Governo, empresas, e até mesmo com nossos vizinhos.”

Continue acompanhando o hub Hello Moto para conhecer e participar de novos espaços de inclusão para viver ainda mais a sua #HelloCidade.

POSTS RELACIONADOS

motostyle
arte

Por trás das lentes de Ariel Carlomagno

motostyle
arte

A arte do conforto de Samuel d’Saboia