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O samba que movimenta o Viaduto do Brooklyn


Escrito por Motorola

Conheça o evento que vai além da diversão e atua como um espaço de inclusão cultural e social nas ruas de Porto Alegre

São oito horas da noite de terça-feira, quando uma pequena movimentação começa embaixo do Viaduto Imperatriz Leopoldina, mais conhecido como Brooklyn, em Porto Alegre. A roda de samba já está a postos. Carrinhos de comida e bebida também. O público chega aos poucos, e divide o espaço amigavelmente com os moradores de rua e skatistas que ali estão.

Assim começa mais uma “Terça do Samba”, evento encabeçado pelo grupo Encruzilhada do Samba, e que deu outra cara ao Brooklyn. “Antes de o samba acontecer isso aqui era abandonado e super perigoso, ninguém nem andava aqui”, diz Camila Vieira, estudante da URBS, localizada há poucos metros do viaduto. “O evento deixou esse lugar mais seguro para nós estudantes”, completa.

Viaduto do Brooklyn ainda vazio, algumas horas antes da "Terça do Samba"começar
Viaduto do Brooklyn ainda vazio, algumas horas antes da “Terça do Samba”começar

O samba, que acontece todas às terças-feiras, começou em 2016, mas em outro lugar, na escadaria Borges de Medeiros, centro histórico da capital gaúcha. No início de 2018, com o aumento do público, o encontro foi transferido para o Brooklyn para que pudesse comportar mais gente.

Grupo Encruzilhada do Samba toca no Viaduto do Brooklyn
Grupo Encruzilhada do Samba toca no Viaduto do Brooklyn

Apesar do clima de festa, o evento não tem apenas o intuito de entreter, mas também atuar como uma forma de inclusão social e resistência da cultura de rua. “Há a preocupação em sermos inclusivos socialmente, discutindo as desigualdades através do samba e de apoiar pautas ligadas aos direitos da mulher, dos homossexuais, da negritude etc”, diz Diego Silva, integrante do Encruzilhada e organizador do evento.

A inclusão citada por Diego começa dentro do grupo Encruzilhada. “Na banda há mulheres e homens, gays e héteros, negros e brancos, e diferentes classes sociais. Dentre os que se somam para compor a roda ou em pequenas participações, temos de doutores (desses com doutorado) a pessoas em situação de rua”, conta.

O samba começa por volta das 19h30, mas o auge do evento se dá entre às 22h e 23h. O público que se vê ali é bem eclético. “Muito provavelmente a diversidade da banda influencie a diversidade do público. Aqui é normal assistirmos pessoas bem vestidas sambando junto a pessoas em situação de extrema pobreza, mulheres transsexuais e cissexuais, casais homossexuais, idosos e crianças, pessoas de todas as raças, credos, cores e classes”, completa.

O samba transformou o viaduto, levando música e cultura para as ruas de Porto Alegre
O samba transformou o viaduto, levando música e cultura para as ruas de Porto Alegre

Gabriel Ribeiro, designer, acha que o samba transforma não apenas o espaço, mas também os frequentadores. “A diversidade do público ajuda a quebrar preconceitos”, diz. Angélica Jung, pedagoga, reitera que o evento deixou o Brooklyn mais seguro. “Eu não sou muito da noite, mas eu venho para reforçar que temos que ocupar esses espaços. Isso aqui era super abandonado, ninguém circulava. Hoje em dia tem vida”, afirma.

O evento, que acontece todas às terças-feiras, recebe aproximadamente 500 pessoas
O evento, que acontece todas às terças-feiras, recebe aproximadamente 500 pessoas

Por todo seu histórico e a forma como atua, o “Samba de Terça” acabou se tornando um símbolo na luta pela ocupação cultural das ruas, um encontro entre o engajamento da banda e do público, e que vem transformando um pedaço da cidade até então vazio e perigoso. “Toda ocupação cultural do espaço público é importante, mas algumas, por sua periodicidade e alcance, em média 500 pessoas por edição, acabam se destacando em relação àquelas atividades ocasionais e pontuais. Importante é ocupar, resistir e avançar”, completa Diego.

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